Número total de visualizações de página

10 de outubro de 2013

PAPA FRANCISCO: UMA ENTREVISTA HISTÓRICA?

Aqui deixo, para quem quizer ler e, sobretudo, como forma de guardar para memória futura, uma entrevista do Papa Francisco que considero marcante do inicio do seu papado. Não sou crente,mas tal como Scalfari, também penso que este homem, se conseguir fazer o que pensa dever ser a Igreja que dirige, estaremos perante uma "mudança de era". 

Papa Francisco e Eugenio Scalfari: a arte do diálogo


O título é roubado a Hans Kung, que esta quarta-feira comentava dessa forma noLa Repubblica a entrevista publicada na véspera pelo jornal italiano.
O director do jornal, Eugenio Scalfari, estivera com o Papa Francisco uma semana antes. E concluía, após o colóquio: “Este é o Papa Francisco. Se a Igreja se tornar tal como Francisco a pensa e deseja, teremos uma mudança de era.”
Esta nova entrevista do Papa que nem gosta especialmente de entrevistas revela (mais do que as frases mais mediáticas sobre a Cúria ou o Vaticano), a vontade de alguém que insiste sobretudo em falar do que deve ser essencial na mensagem cristã – a pessoa de Jesus. E do modo como isso deve levar os crentes a entenderem-se com os não-crentes que, na cidade dos homens, querem uma outra forma de vida, com mais espaço para todos.
A entrevista surge no contexto da reunião que hoje termina no Vaticano, entre o Papa e os oito cardeais por ele chamados para o novo conselho de consultores, que ele pretende colocar a colaborar estreitamente com ele no governo da Igreja. Há dia, em passagem por Portugal, o cardeal Seán O’Malley, arcebispo de Boston, falava das expectativas de reforma da Igreja que esta reunião trazia – nomeadamente em termos de uma maior colegialidade e participação.
A entrevista publicada pelo La Repubblica sucede a uma troca de cartas entre Eugenio Scalfari e o Papa, publicada há poucas semanas pelo mesmo jornal. Scalfari começou por questionar o Papa, numa espécie de carta aberta, sobre a questão das reformas e o Papa tomou a iniciativa de responder ao director do jornal, manifestando-lhe também a sua vontade de se encontrar com ele.
O texto original da entrevista agora publicada pode ser encontrado aqui.
A tradução aqui utilizada, que apenas foi sujeita a uma pequena revisão, foi feita por Rui Pedro Vasconcelos, da Livraria Fundamentos, de Braga.


Diz-me o Papa Francisco: “O pior dos males que afligem o mundo nestes anos é o desemprego dos jovens e a solidão em que são deixados os velhos. Os velhos têm necessidade de atenção e de companhia; os jovens de trabalho e de esperança, mas não têm nem uma nem outra, e o problema é que já nem o procuram. Foram esmagados no presente. Diga-me: pode-se viver esmagado no presente? Sem memória do passado nem desejo de se projectar no futuro construindo um projecto, um horizonte, uma família? É possível continuar assim? Isto, segundo me parece, é o problema que a Igreja tem diante de si.”
Santidade, digo-lhe, é um problema sobretudo político e económico, que diz respeito aos Estados, aos governos, aos partidos, às associações sindicais.
“Certo, tem razão, mas diz respeito também à Igreja, aliás diz respeito sobretudo à Igreja porque estas situações não ferem apenas o corpo mas também a alma. A Igreja deve sentir-se responsável seja das almas como dos corpos.”
Santidade, diz-me que a Igreja deve sentir-se responsável. Devo deduzir que a Igreja não está consciente deste problema e que o senhor a conduz nesta direcção?
“De certo modo esta consciência existe, mas não de modo suficiente. Desejo que seja ainda mais. Não é este o único problema que temos diante de nós, mas é o mais urgente e o mais dramático.”

O encontro com o Papa Francisco teve lugar terça-feira na sua residência de Santa Marta, numa pequena sala simples, com uma mesa e cinco ou seis cadeiras, e um quadro na parede. Foi precedido de uma chamada que não esquecerei enquanto for vivo.
Fico em choque enquanto a voz de Sua Santidade me fala do outro lado da linha: “Bom dia, sou papa Francisco.” Bom dia Santidade – digo eu –, estou chocado, não esperava que me telefonasse. “Porquê chocado? Você escreveu-me uma carta pedindo-me para me conhecer pessoalmente. Eu tinha o mesmo desejo e por isso aqui estou para marcar o encontro. Vejamos a minha agenda: quarta não posso, segunda também não, poderá ser terça?”
Repondo: é perfeito.
“O horário é um pouco incómodo, às 15 pode ser? Se não, mudamos o dia.” Santidade, está perfeito também. “Então estamos de acordo: terça 24, às 15 horas. Em Santa Marta. Deverá entrar pela porta do Santo Ofício.”
Não sei como concluir a chamada e deixou-me ir dizendo-lhe: posso abraçá-lo por telefone? “Certamente, também o abraço. Depois o faremos pessoalmente, adeus.”
Aqui estou. O Papa entra e dá-me a mão, e sentamo-nos. O Papa sorri-me e diz-me: “Um dos meus colaboradores que o conhece disse-me que você vai tentar converter-me.”
É uma piada, respondo-lhe. Também os meus amigos pensam que será o senhor a querer converter-me.
Volta a sorrir e responde: “O proselitismo é um absurdo solene, não tem qualquer sentido. É necessário conhecer-se, escutar-se e procurar conhecer melhor o mundo que nos rodeia. A mim acontece-me que, depois de um encontro, tenho vontade de o repetir porque nascem novas ideias e descobrem-se novas necessidades. Isto é importante: conhecer-se, escutar-se, ampliar o círculo de pensamento. O mundo é percorrido por estradas que aproximam e afastam, mas o importante é conduzirem-nos em direcção ao Bem.”
Santidade, existe uma única visão do Bem? E quem a estabelece?
“Cada um de nós tem a sua visão do Bem e também do Mal. Nós deveremos incitar a proceder segundo o que, em consciência, se pensa ser o Bem.”
Santidade, já o havia escrito na carta que me endereçou. A consciência é autónoma, disse, e cada um deve obedecer à própria consciência. Penso que será uma das frases mais corajosas ditas por um Papa.
“E aqui a repito. Cada um tem a sua ideia de Bem e de Mal e deve escolher seguir o Bem e combater o Mal como lhe dirá a consciência. Bastaria isso para melhorar o mundo.”
A Igreja está a fazê-lo?
“Sim, as nossas missões têm esse objectivo: individuar as necessidades materiais e imateriais das pessoas e procurar satisfazê-las como podemos. Sabe o que é o ‘ágape’?”
Sim, sei.
“É o amor pelos outros, como o Senhor o anunciou. Não é proselitismo, é amor. Amor pelo próximo, fermento que serve o bem comum.”
Ama o próximo como a ti mesmo.
“Exactamente, é assim.”
Jesus, na sua pregação, disse que o ágape, o amor pelos outros, é o único modo de amar a Deus. Corrija-me se estou enganado.
“Não está. O Filho de Deus encarnou para infundir nas almas dos homens o sentimento da fraternidade. Todos irmãos e todos filhos de Deus. Abba, como ele chamava ao Pai. Eu traço-vos o caminho, dizia. Segui-me e encontrareis o Pai e sereis todos seus filhos e ele se comprazerá em vós. O ágape, o amor de uns pelos outros, dos mais próximos aos mais distantes, é assim o único modo que Jesus nos indicou para encontrar o caminho da Salvação e das Bem-Aventuranças.”
Todavia a exortação de Jesus, que recordamos antes, é a de que o amor pelo próximo seja igual àquele que temos por nós próprios. Por isso aquilo que muitos chamam de narcisismo é reconhecido como válido, positivo, na mesma medida do amor ao outro. Discutimos durante algum tempo sobre este aspecto.
“Para mim – dizia o Papa – a palavra narcisismo não me agrada, indica um amor imoderado a si mesmo e isto não é bom, pode produzir danos graves não apenas à alma daquele que é afectado mas também à relação com os outros, com a sociedade em que vive. O verdadeiro problema é que os mais atingidos por este problema, que é na realidade um distúrbio mental, são pessoas que têm muito poder. Muitas vezes os líderes são narcisistas.”
Também muitos líderes da Igreja o foram.
“Sabe o que penso sobre este assunto? Os líderes da Igreja frequentemente foram narcisistas, lisonjeados e erradamente animados pelos seus cortesãos. A coorte é a lepra do papado.”
A lepra do papado, foi a sua expressão. Mas o que é a coorte? Refere-se à Cúria? – perguntei.
“Não, na Cúria haverá talvez cortesãos, mas a Cúria, no seu complexo, é outra coisa. É aquilo que nos exércitos se designa de intendência, gere os serviços que servem a Santa Sé. Mas tem um defeito: é Vaticano-centrista. Vê e trata dos interesses do Vaticano, que são ainda, em grande parte, interesses temporais. Esta visão vaticano-centrista transcura o mundo que a rodeia. Não partilho desta visão e farei tudo para a mudar. A Igreja é ou deve tornar a ser uma comunidade do Povo de Deus e os presbíteros, os párocos, os bispos com cura de almas, estão ao serviço do Povo de Deus. A Igreja é isto, uma palavra não por acaso diversa da Santa Sé, que tem uma função importante mas está ao serviço da Igreja. Eu não poderia ter a fé plena em Deus e no seu Filho se não me tivesse formado na Igreja e não tivesse a sorte de me encontrar, na Argentina, numa comunidade sem a qual não teria tomado consciência de mim mesmo e da minha fé.”
Sentiu a sua vocação desde jovem?
“Não desde muito jovem. Tive, por indicação da minha família, de ter outra profissão, trabalhar, ganhar um salário. Frequentei a universidade. Tive também uma professora pela qual ganhei respeito e amizade, era uma comunista fervorosa. Muitas vezes lia-me e dava-me a ler textos do Partido Comunista. Assim conheci também aquela concepção muito materialista. Lembro-me de que me fez ter também o comunicado dos comunistas americanos a defender os Rosenberg, que haviam sido condenados à morte. A senhora de que falo foi depois detida, torturada e assassinada pelo regime ditatorial que na altura governava a Argentina.”
O comunismo seduziu-o?
“O seu materialismo não teve qualquer atracção em mim. Mas conhecê-lo através de uma pessoa corajosa e honesta foi-me muito útil, percebi algumas coisas, um aspecto do social, que depois reencontrei na doutrina social da Igreja.”
A teologia da libertação, que o Papa Wojtyla excomungou, estava muito presente na América Latina.
“Sim, muitos dos seus expoentes eram argentinos.”
Pensa que foi correcto o Papa tê-los combatido?
“Certamente davam um seguimento político à sua teologia, mas muitos de entre eles eram crentes e com um conceito muito elevado de humanidade.”
Santidade, permite-me dizer também algo sobre a minha formação cultural? Fui educado por uma mãe muito católica. Aos 12 anos venci até um concurso de catequese entre todas as paróquias de Roma e tive um prémio do Vicariato. Comungava todas as primeiras sextas-feiras de cada mês, frequentava a liturgia e acreditava. Mas tudo mudou quando entrei no liceu. Li, entre os textos de filosofia que estudávamos, o “Discurso sobre o Método” de Descartes, e fiquei marcado pela frase, tornada um ícone, “Penso, logo existo”. O eu torna-se assim a base da existência humana, a sede autónoma do pensamento.
“Descartes todavia nunca renegou a fé no Deus transcendente.”
É verdade, mas pôs o fundamento de uma visão totalmente diversa e a mim aconteceu-me ter-me encaminhado por aquele caminho que depois, corroborado por outras leituras, me conduziu a um ponto totalmente diferente.
“Mas o senhor, pelo que percebi, é um não crente, mas não um anticlerical. São duas coisas muito diferentes.”
É verdade, não sou anticlerical, mas torno-me nisso quando encontro um clerical.
Sorri-me e diz-me: “Também me acontece a mim: quando tenho diante de mim um clerical torno-me de imediato anticlerical. O clericalismo não deveria ter nada a ver com o cristianismo. São Paulo foi o primeiro a falar aos gentios, aos pagãos, aos crentes de outras religiões, foi o primeiro a ensiná-lo.”
Posso perguntar-lhe, Santidade, quais são os santos que sente mais próximos da sua alma e sobre os quais se formou a sua experiência religiosa?
“São Paulo foi aquele que colocou as bases da nossa religião e do nosso credo. Não é possível ser-se um cristão consciente sem São Paulo. Traduziu a pregação de Cristo numa estrutura doutrinal que, ainda que com as actualizações de uma imensa quantidade de pensadores, teólogos, de pastores de almas, resistiu e resiste ao fim de dois mil anos. E a seguir, Agostinho, Bento e Tomás e Inácio. E naturalmente Francisco. Devo explicar-lhe o porquê?”
Francisco – seja-me permitido nesta altura referir-me assim, pois o Papa é o primeiro a sugerir-mo pela maneira como fala, como sorri, pelas suas expressões de surpresa ou de concordância, olhando-me de modo a encorajar-me a colocar até as perguntas mais difíceis e mais embaraçosas para a liderança da Igreja.
Então eu pergunto-lhe: de Paulo explicou a importância e o papel que teve, mas gostaria de saber entre aqueles que nomeou quem sente mais próximo da sua alma?
“O senhor pede-me uma classificação, mas as classificações só se podem fazer no desporto ou em algo similar. Poderei dizer-lhe o nome dos melhores futebolistas da Argentina. Mas os santos...”
Costuma dizer-se “brinca com as crianças e deixa os santos”, conhece o provérbio?
“Exacto. Todavia não quero evitar a sua pergunta porque não me pediu uma classificação da importância cultural e religiosa mas sim quem está mais próximo da minha alma. Agora digo-lhe: Agostinho e Francisco.”
E não Inácio, de cuja Ordem o senhor vem?
“Inácio, por razões compreensíveis, é aquele que melhor conheço. Fundou a nossa Ordem. Recordo-lhe que da nossa Ordem provém também Carlo Maria Martini, para mim e para si também é alguém muito caro. Os jesuítas foram e continuam a ser o fermento – não o único, mas talvez o mais eficaz – da catolicidade: cultura, ensino, testemunho missionário, fidelidade ao pontífice. Mas Inácio, que fundou a Companhia, era também um reformador e um místico. Sobretudo um místico».
Pensa que os místicos foram importantes para a Igreja?
“Foram fundamentais. Uma religião sem místicos é uma filosofia.”
Tem uma vocação mística?
“Que lhe parece a si?”
A mim parece-me que não.
“Provavelmente tem razão. Adoro os místicos; até Francisco, em muitos aspectos da sua vida, foi um místico mas eu não creio ter essa vocação, além de que é necessário compreender o significado profundo da palavra místico. O místico consegue despojar-se do fazer, dos factos, dos objectivos e até da pastoralidade missionária a fim de atingir a comunhão com os Bem-Aventurados. Breves momentos que no entanto preenchem toda a vida.”
Alguma vez lhe aconteceu a si?
“Raramente. Por exemplo, quando o Conclave me elegeu como Papa. Antes da aceitação, pedi para me retirar alguns minutos na sala ao lado daquela com a varanda para a praça. A minha cabeça estava completamente vazia e uma grande ânsia me tinha invadido. Para me relaxar, fechei os olhos e expulsei todos os pensamentos, também aqueles de recusar-me a aceitar o encargo, tal como é permitido pelo procedimento litúrgico. Fechei os olhos e deixei de ter qualquer ansiedade ou emotividade. A um certo ponto, uma grande luz me invadiu, foi por um momento mas a mim pareceu-me longuíssimo. Depois a luz dissipou-se, eu levantei-me imediatamente e dirigi-me à sala onde os cardeais me esperavam e onde se encontrava a mesa com a acta de aceitação. Assinei-a, o cardeal camerlengo confirmou-a e depois, na varanda, tivemos o ‘Habemus Papam’”.
Ficamos um pouco em silêncio e, em seguida, digo-lhe: Falávamos dos santos que sente mais vizinhos à sua alma e ficamos em Agostinho. Quer dizer-me porque o sente muito próximo de si?
“Também o meu predecessor tem Agostinho como ponto de referência. Aquele santo atravessou muitos episódios na sua vida e mudou muitas vezes a sua posição doutrinal. Teve também palavras muito duras no confronto com os hebreus, algo que nunca partilhei. Escreveu muitos livros e aquilo que me parece mais revelador da sua intimidade intelectual e espiritual são as ‘Confissões’, contêm muitas manifestações de misticismo mas não é, como muitas vezes se defende, o continuador de Paulo. Antes, vê a Igreja e a fé de um modo profundamente diverso de Paulo, talvez porque quatro séculos os separem.”
Qual é a diferença, Santidade?
“Para mim é diferente em dois aspectos, substanciais. Agostinho sente-se impotente diante da imensidade de Deus e diante dos encargos que um cristão e bispo devem concretizar. De facto ele não foi de modo nenhum incapaz, mas a sua alma sentia-se sempre aquém do que teria desejado. Outro aspecto é a graça dispensada pelo Senhor como um elemento fundante da fé. Da vida. Do sentido da vida. Quem não é tocado pela graça poderá ser uma pessoa sem mancha e sem medo, mas jamais será como uma pessoa tocada pela graça. Esta é a intuição de Agostinho.”
Sente-se tocado pela graça?
“Isso ninguém o poderá saber. A graça não faz parte da consciência, é a quantidade de luz que temos na alma, não de sabedoria ou de razão. Até você, de um modo inconsciente, poderia ser tocado pela graça.”
Sem fé? Não crente?
“A graça tem a ver com a alma.”
Eu não creio na alma.
“Pode não crer, mas não deixa de a ter.”
Santidade, havia dito que não tinha nenhuma intenção de me converter e creio que não o conseguiria.
“Isso não se sabe, mas no entanto não tenho qualquer intenção.”
E Francisco?
“É grandíssimo porque é tudo. Homem que quer fazer, que quer construir, funda uma Ordem com a sua regra, é itinerante e missionário, é poeta e profeta, é místico, constatou em si mesmo o mal e dele saiu, ama a natureza, os animais, a erva do prado e os pássaros que voam nos céus, mas sobretudo ama as pessoas, as crianças, os velhos, as mulheres. É o exemplo mais luminoso daquele ágape de que falávamos antes».
Tem razão, Santidade, a descrição é perfeita. Mas então porque nenhum dos seus predecessores escolheu este nome? E, segundo me parece, depois de si nenhum outro o escolherá?
“Isso não o sabemos, não hipotequemos o futuro. É verdade, antes de mim ninguém o escolheu. Aqui enfrentamos o problema dos problemas. Quer beber alguma coisa?».
Obrigado, talvez um copo de água.
Levanta-se, abre a porta e pede a um colaborador que se encontra à entrada para trazer dois copos de água. Pergunta-me se quero um café, respondo que não. A água chega. No final da conversa o meu copo estará vazio, mas o seu continua cheio. Tosse um pouco e começa.
“Francisco queria uma Ordem mendicante e também itinerante. Missionários com a missão de encontrar, escutar, dialogar, ajudar, difundir fé e amor. Sobretudo amor. E acarinhava uma Igreja pobre que se responsabilizasse pelos outros, que recebesse ajuda material utilizando-o para sustentar os outros, sem qualquer preocupação por si própria. Passaram-se 800 anos e os tempos mudaram, mas o ideal de uma Igreja missionária e pobre continua mais do que válida. Esta é também a Igreja que Jesus e os seus discípulos pregaram.”
Os cristãos são neste momento uma minoria. Até em Itália, que é definida como o jardim do Papa, os católicos praticantes serão, segundo algumas sondagens, entre os 8% e os 15%. Os católicos que dizem sê-lo, mas que de facto o são pouco, representam 20%. No mundo existem cerca de mil milhões de católicos e, se juntarmos as outras Igrejas cristãs, superam o os mil milhões e meio, mas o planeta é povoado por 6 a 7 mil milhões de pessoas. Vocês serão muitos, especialmente em África e na América Latina mas, ainda assim, uma minoria.
“Nós sempre fomos uma minoria mas o tema de hoje não é esse. Pessoalmente, penso que ser uma minoria seja até uma força. Devemos ser uma semente de vida e de amor e a semente é uma quantidade infinitamente mais pequena do que a massa de frutos, de flores e de árvores que dela nascem. Penso já ter dito que o nosso objectivo não é o proselitismo mas a escuta das necessidades, dos desejos, das desilusões, dos desesperos, da esperança. Devemos devolver a esperança aos jovens, ajudar os velhos, abrir para o futuro, difundir o amor. Pobres entre os pobres. Devemos incluir os excluídos e anunciar a paz. O Vaticano II, inspirado pelo Papa João e por Paulo VI, decidiu olhar o futuro com um espírito moderno e abrir-se à cultura moderna. Os padres conciliares sabiam que abrir-se à cultura moderna significava um ecumenismo religioso e o diálogo com os não-crentes. Depois disso foi feito muito pouco nessa direcção. Eu tenho a humildade e a ambição de o querer fazer.”
Até porque – permita-me acrescentar – a sociedade moderna atravessa por todo o planeta um momento de crise muito profunda – e não apenas económica, mas social e espiritual. O senhor, no início deste nosso encontro, descreveu uma geração entalada no presente. Também nós, não-crentes, sentimos este sofrimento quase antropológico. Por isso queremos dialogar com os crentes e com quem melhor os representa.
“Eu não sei se sou o que melhor os representa, mas a Providência colocou-me no lugar de liderança da Igreja e da diocese de Pedro. Farei o que está ao meu alcance para cumprir o mandato que me foi confiado.”
Jesus, como o senhor recordou, disse: ama o teu próximo como a ti mesmo. Parece-lhe que isto se concretizou?
“Infelizmente não. O egoísmo aumentou e o amor para com os outros diminuiu.”
Este é talvez o objectivo que nos é comum: ao menos nivelar a intensidade destes dois tipos de amor. A sua Igreja estará preparada a desenvolver este objectivo?
“Você o que pensa?”
Penso que o amor pelo poder temporal será ainda muito forte entre os muros do Vaticano e na estrutura institucional de toda a Igreja. Penso que a Instituição predominará sobre a Igreja pobre e missionária que o senhor desejaria.
“As coisas de facto estão assim e neste âmbito não se fazem milagres. Recordo que também S. Francisco a seu tempo teve de negociar com a hierarquia romana e com o Papa para fazer reconhecer as regras da sua Ordem. No final obtém a aprovação mas com profundas alterações e compromissos.”
O senhor seguirá o mesmo caminho?
“Certamente que não sou Francisco de Assis e não tenho a sua força e a sua santidade. Mas sou o bispo de Roma e o papa da catolicidade. A minha primeira decisão foi nomear um grupo de oito cardeais que serão o meu conselho. Não cortesãos, mas pessoas sábias e animadas dos meus próprios sentimentos. Este é o início de uma Igreja com uma organização não apenas vertical mas também horizontal. Quando o cardeal Martini falava acentuando o papel dos Concílios e dos Sínodos sabia muito bem como foi longo o caminho a percorrer naquela direcção. Com prudência, mas também com firmeza e tenacidade.”
E a política?
“Porque mo pergunta? Eu já lhe disse que a Igreja não se ocupa da política.”
Mas há uns dias fez um apelo aos católicos para se empenharem civil e politicamente.
“Não me dirigi somente aos católicos mas a todos os homens de boa vontade. Disse que a política é a primeira das actividades civis e tem um campo de acção próprio que não é o da religião. As instituições políticas são laicas por definição e operam em esferas independentes. Isto foi dito por todos os meus predecessores, pelo menos de há uns anos para cá, ainda que com acentos diversos. Creio que os católicos empenhados na política têm dentro de si os valores da religião mas têm também uma consciência e uma competência para actuar. A Igreja não ultrapassará o âmbito de exprimir e difundir os seus valores, pelo menos enquanto eu estiver aqui.”
Mas nem sempre a Igreja foi assim.
“Quase nunca foi assim. Frequentemente a Igreja como instituição foi dominada pela dimensão temporal e muitos dos seus membros, incluindo altos expoentes, têm ainda este modo de sentir. Mas deixe-me fazer-lhe uma pergunta: você, laico, não-crente em Deus, em que acredita? Você é um escritor e um homem do pensamento. Acreditará por isso em algo, terá um valor dominante. Não me responda com palavras como honestidade, procura, visão do bem comum; tudo princípios e valores importantes, certamente, mas não é isso que eu pergunto. Pergunto-lhe o que pensa da essência do mundo, até do universo. Pergunta-se a si mesmo, como todos nos perguntamos, quem somos, de onde vimos, para onde vamos. Até uma criança se coloca estas perguntas. E você?”
Agradeço-lhe a pergunta. A resposta é esta: eu creio no Ser, isto é, no tecido do qual surgem as formas, os Entes.
“E eu creio em Deus. Não num Deus católico, não existe um Deus católico, existe Deus. E creio em Jesus Cristo, a sua incarnação. Jesus é o meu mestre e o meu pastor, mas Deus, o Pai, Abba, é a Luz e o Criador. Este é o meu Ser. Parece-lhe que estamos muito distantes?»
Estamos distantes nas ideias, mas próximos como pessoas humanas, inconscientemente animadas dos nossos instintos que se transformam em pulsões, sentimentos, vontade, pensamento e razão. Nisto estamos próximos.
“Mas aquilo que você designa de Ser como o define? Quer definir como o pensa?”
O Ser é um tecido de energia. Energia caótica mas indestrutível e num permanente caos. Desta energia emergem as formas quando a energia chega ao ponto de explodir. As formas têm as suas leis, os seus campos magnéticos, os seus elementos químicos, que combinam casualmente, envolvem-se e, por fim, apagam-se sem que a sua energia se destrua. O ser humano é possivelmente o único animal dotado de pensamento, pelo menos neste planeta e no Sistema Solar. Disse que é animado por instintos e desejos mas acrescento que contém também dentro de si uma ressonância, um eco, uma vocação ao caos.
“Muito bem. Não queria que me fizesse um compêndio da sua filosofia e o que me disse é suficiente. Observo da minha parte que Deus é a luz que ilumina as trevas ainda que não as dissolva, e uma centelha daquela luz divina está dentro de cada um de nós. Na carta que escrevi, recordo ter-lhe dito que também a nossa espécie acabará mas não acabará a luz de Deus que nesse momento invadirá todas as almas e onde será tudo em todos.”
Sim, recordo bem, disse “toda a luz estará em todas as almas” o que – se me permite – dá mais uma imagem de imanência do que de transcendência.
“A transcendência fica porque aquela luz, toda em todos, transcende o universo e as espécies que naquela fase o povoam. Mas regressemos ao presente. Demos um passo em frente no nosso diálogo. Verificamos como na sociedade e no mundo em que vivemos o egoísmo aumentou muito em comparação com o amor pelos outros e os homens de boa vontade deverão trabalhar, cada um segundo as suas forças e competências, para que o amor de uns pelos outros aumente a fim de igualar e, quem sabe, superar o amor de si mesmo.”
Aqui também a política é posta em causa.
“Com certeza. Pessoalmente penso que o assim chamado liberalismo selvagem não faz senão tornar os fortes mais fortes, os débeis mais débeis e os excluídos mais excluídos. É necessária uma grande liberdade, uma total ausência de discriminação e demagogia, e muito amor. São necessárias regras de comportamento e também, se for necessário, intervenções directas do Estado para corrigir as desigualdades mais intoleráveis.”
Santidade, é certamente uma pessoa de uma grande fé, tocada pela graça, animada da vontade de relançar uma Igreja pastoral, missionária, regenerada e não ‘temporal’. Mas da maneira como fala e do quanto eu compreendo, o senhor é e será um papa revolucionário. Metade é jesuíta, metade um homem de S. Francisco, um conúbio nunca antes visto. E depois, gosta de “Promessi Sposi” de Manzoni, Leopardi e sobretudo Dostoievsky, do filme “La strada” e “Prova d’orchestra” de Fellini, “Roma cittá aperta” de Rossellini e também dos filmes de Aldo Fabrizi.
“Gosto destes porque via-os com os meus pais quando era criança.”
Aí está. Posso sugerir-lhe que veja dois filmes recém estreados? “Viva la libertá” e o filme sobre Fellini de Ettore Scola. Estou certo de que gostará.
Sobre o poder eu digo-lhe: sabe que aos vinte anos eu fiz exercícios espirituais durante um mês e meio com os jesuítas? Os nazis estavam em Roma e eu tinha desertado do recrutamento militar. Seríamos punidos com a pena de morte. Os jesuítas hospedaram-nos com a condição de fazermos exercícios espirituais durante todo o período em que estaríamos escondidos na sua casa; e assim foi.
“Mas é impossível resistir a um mês e meio de exercícios espirituais” diz-me, estupefacto e divertido.
Na próxima vez contar-lhe-ei esse episódio. Abraçamo-nos. Saímos pelas breves escadas que nos separam do portão. Peço ao Papa para não me acompanhar mas ele insiste com um gesto.
“Falaremos também do papel das mulheres na Igreja. Recordo-lhe que Igreja [a palavra] é feminino.”
E falaremos também, se quiser, sobre Pascal. Gostaria de saber o que pensa sobre esta grande alma.
“Leve a todos os seus familiares a minha bênção e peça para que rezem por mim. E você, pense em mim, pense muitas vezes em mim.”

Apertamos as mãos e Francisco fica parado com os dois dedos levantados em sinal de bênção. Eu saúdo-o da janela. Este é o Papa Francisco. Se a Igreja se tornar tal como Francisco a pensa e deseja, teremos uma mudança de era.

15 de setembro de 2013

Ainda a saga da convergência das pensões

O governo aprovou a sua proposta sobre o processo de convergência das pensões da CGA com as pensões do regime geral da segurança social.
O principio da convergência de regimes, à muito previsto na lei da segurança social, é entendível e aceitável.
De facto os sistemas de pensões conheceram evoluções diferentes nos dois sectores e o caminho, já iniciado, para uma maior convergência pode e deve ser continuado. Até aqui tudo bem,
O problema coloca-se, contudo, quanto à forma de o fazer.
Não há memória de ter havido, nos diferentes momentos em que ambos os sistemas sofreram alterações, nas respectivas condições de acesso à pensão e nas respectivas fórmulas de cálculo, que as novas regras se tenham aplicado às pensões já concedidas. O que sempre aconteceu foi a aplicação das novas regras para o futuro e com a fixação de regimes de transição.
O Governo propõe-se, agora, fazer algo de inédito que é cortar as pensões já fixadas para os beneficiários da CGA, reduzindo-as em 10%, com algumas excepções. E isto é, a meu ver, inaceitável e desnecessário.
Mas o governo toma esta decisão não por uma questão de principio sobre relativo à convergência de regimes mas por questões exclusivamente financeiras e para reduzir a despesa pública. Basta, aliás, ler os fundamentos constantes no preâmbulo da proposta de lei para se perceber isso.
Se estivesse em causa uma verdadeira convergência de regimes não haveria lugar para deixar de fora os cortes para algumas pensões. E muito menos, para se prometer a reverão dos cortes quando a economia e a situação financeira o permitir. Se é de convergência que se trata não faz sentido dizer que um dia se acaba com a convergência. Parece óbvio.
Fica por isso reforçada a ideia de que não se trata de nenhuma visão estratégica sobre o sistema de pensões mas sim de reduzir a despesa.
Até dou de barato que, em situações de dificuldade como as que se vivem actualmente, possa ter que se pedir um esforço especial. Mas, se assim é, teria que ser qualquer coisa assumida como transitória e não estrutural.
Aliás esse esforço já está a ser feito pelos pensionistas da CGA com a aplicação da chamada taxa de solidariedade que, por ser excepcional e formalmente assumida como transitória e assim sempre apresentada pelo governo, mereceu aprovação do TC.
Neste sentido até poderiamos admitir que, mais uma vez, se pedisse um esforço suplementar e se mantivesse, por mais algum tempo a taxa de solidariedade, para as pensões já formadas, ao mesmo tempo que se legislava a convergência para as pensões em formação, acautelando, como é habitual, esquemas de transição.
O governo não o quis fazer por razões que só ele saberá mas que podem esconder, como dizia Manuela Ferreira Leite, uma redução semelhante das pensões do regime geral num momento mais apropriado e quando disso conseguirem convencer Paulo Portas a deixa cair a sua linha vermelha responsável pela crise politica de Julho.
Ao tomar esta atitude o governo corre o risco de, mais uma vez, esbarrar com o risco do TC declarar a medida inconstitucional.
Não se pode queixa que não sabia e encontrar desculpas em supostas forças de bloqueio. 

7 de agosto de 2013

Pensões da CGA: Equívocos e trapalhadas

Os equívocos e as trapalhadas na revisão das pensões da CGA:
1- actualmente o valor das pensões da CGA, é de 89% da media das remunerações dos últimos 3 anos. Não é, por isso, de 100% da ultima remuneração. 
2- até há não muito tempo também era assim no regime da segurança social. E quando o regime mudou não consta que as novas regras se tivessem aplicado com efeitos retroactivos. 
3- o governo justifica estes cortes de 10% nas pensões, com efeitos retroactivos, em nome da convergência com o regime da segurança social, admitindo a sua devolução progressiva em função da situação económica;
4- este argumento é, no mínimo, estranho, para não dizer mentiroso e oportunista. Com ele pretende o governo dar a ideia de transitoriedade da medida em nome da situação de emergência do Pais. Tenta, assim, driblar o TC. 
5- e é um argumento mentiroso porque ele não é compatível com a ideia da convergência com o regime da segurança social. Ou será que quando forem repostos os 10% também se aumentarão as pensões da segurança social. 
6- este governo já nos habituou à confusão. E se não estamos atentos levam nos tudo no meio dessa confusão. 
7- falar verdade e claro é mais serio. Se temos um problema de sustentabilidade do sistema publico de pensões devemos encontrar soluções que respeitem o principio da
Confiança e do estado de direito. E não arranjar soluções que exploram, de forma pornográfica, as diferenças entre publico/privado. É feio e demagógico e populista. 
8- e já agora importa dizer que os trabalhadores da função publica pagam mais para a sua reforma (11%) do que is trabalhadores do sector privado (não mais que 7%, uma vez que se cobrem, com os 11% da TSU, outras Coisas como o subsidio de Desemprego e as baixas por doença). 
9- não comparemos, por isso, coisas que não são iguais embora possa dar jeito para baralhar. 
10- e os trabalhadores não ganham nada em deixarem se embarcar nestas divisões criadas para melhor reinar.
11- exige se do governo mais sensatez e seriedade nos processos. A situação já é difícil e complexa. Não precisamos de mais baralhada.

17 de julho de 2013

Não me passa pela cabeça que...

Ainda sobre o acordo de "salvação nacional":
Sou dos que acha que algo tem que ser feito tendo em vista o estabelecimento de uma plataforma mínima que permita criar as condições para a revisão do programa de ajustamento. 
É para mim claro que os termos desse acordo não podem incluir qualquer compromisso quanto às propostas que o governo já fez, nomeadamente no que se refere aos cortes de 4,7 mil milhões de euros e ao ataque ao emprego público e aposentações.
O acordo que está em negociação não pode, por isso, ir além do estabelecimento de um entendimento quanto à satisfação dos compromissos do estado português quanto ao pagamento da dívida pública, deixando em aberto que tal se fará nos termos a acordar com a UE, BCE e FMI.
Este acordo deve, por isso, definir os contornos de um mandato claro para a renegociação do programa de ajustamento. Precisamos de mais tempo e de melhores juros para pagar a nossa dívida. E precisamos de um programa de ajustamento que permita criar espaço para o crescimento e para a criação de emprego, pondo fim à austeridade cega que tem sido até aqui a única resposta à crise.
O acordo que possa vir a ser firmado entre os 3 partidos deve ser entendido como o reforço da posição negocial de Portugal e de reafirmação perante os credores de que honraremos os nosso compromissos, e não para viabilizar o programa apresentado pelo governo.
Não me passa pela cabeça que possa ser outro o entendimento dos negociadores do PS. E não me passa pela cabeça que o PR e os partidos da maioria pensem que poderão esperar outra coisa do PS.
Se o PR e os partidos do governo não quiserem assim, terão que contar que enfrentar sozinhos os problemas que criaram.
O resto é andar a brincar à politica. E para esse peditório os portugueses já deram que baste.

15 de julho de 2013

A minha leitura sobre a crise dia-a-dia

Para minha memória futura resolvi reunir, neste post, os comentários que, dia-a-dia, fui publicando sobre o evoluir da crise que se iniciou com a demissão do Ministro das Finanças. Os comentários aparecem por ordem cronologicamente decrescente e cobrem o período de 1 a 15 de julho. Quem tiver paciência pode ver aqui o meu filme sobre os acontecimentos.
  • Subscrevo inteiramente a analise de Sócrates sobre a balbúrdia institucional e humilhação das instituições provocada pela crise aberta pelo governo e pela intervenção do PR. Já aqui referi que esta situação não augura nada de bom para as instituições do nosso sistema democrático. Já estão tão débeis que bem podiam dispensar mais um abanão desta natureza. Esperemos que haja algum bom senso que permita fechar esta crise quanto antes e abrir caminhos para a sua rápida superação.
  • Vi há pouco um programa sobre a situação social na Grécia, como resultado do programa irresponsável que lhe foi aplicado, que me deixou muito preocupado. Ja toda a gente reconheceu que a receita aplicada era errada mas os danos causados estão lá. Espero que em Portugal se encontrem caminhos, que passam pela renegociação seria do nosso programa de ajustamento, que impeçam uma situação daquele tipo. E para evitar isso temos que ter a capacidade de discutir, com legitimidade reforçada, novas condições para o pagamento da divida que permita desafogar a nossa economia e voltar ao crescimento e à criação de emprego. Essa agenda impõe a interrupção rápida da receita adoptada ate aqui. A discussão de um novo programa tem que significar a interrupção desta obsessão austeritaria. E esse novo programa nao pode ser negociado por este governo. Nao so porque perdeu toda a credibilidade mas tambem porque um tal programa é contrario à sua agenda. Ninguém pode negociar algo em que não acredita. Um novo governo, com este mandato, e com uma base de apoio alargada, ou sai de eleições ou de um acordo no actual quadro parlamentar (que me parece muito difícil). Mas tem, necessariamente, que ter novos protagonistas. E o tempo urge.
  • É útil ouvir a voz sensata de alguns senadores do PSD. Agora foi a vez de Mota Amaral fazer a sua análise à crise em declarações à TSF. Responsabiliza o Governo por ter hostilizado o PS ao longo do mandato. Por isso vê com dificuldade que se chegue a um acordo e reconhece que estamos num impasse.
  • Desde 4 feira tenho lido muitas opiniões e acompanhado muitos debates, incluindo o do estado da nação de hoje. Do que tenho ouvido e lido nao consigo vislumbrar, sinceramente, grandes saídas para a embrulhada em que isto se tornou. Até pode haver um enunciado para um acordo para o estabelecimento do tal compromisso de salvação nacional. Mas o que parece cada vez mais claro é que a sua concretização terá que ser feita por outro governo. E teria sido, por isso, preferível que o PR tivesse demitido o governo e tivesse promovido esse acordo na base de um entendimento entre Partidos, evitando esta confusão de termos um governo que pensa que é com ele que os outros partidos devem discutir as bases desse compromisso. Teríamos evitado este espectáculo que nao dignifica as instituições. Hoje fiquei preocupado ao ver um governo a defender uma solução governativa que o PR recusou e a comportar-se como se estivesse, efectivamente em plena efectividade de funções. E tambem nao me conforta assistir a um processo de negociação interpartidaria, sem duvida fundamental, sob a batuta publica do PR. Parece que estamos perante um grupo de meninos mal comportados que o professor fechou na sala para Obrigando-os a fazer as pazes. Por vezes parece-me que vivemos uma situação de humilhação institucional. E isso não é bom para a democracia. Poderíamos ter evitado tudo isto se tivesse havido mais clareza na posição do PR. A crise tem que acabar depressa e, espero, que acabe com soluções que acautelem males piores.
  • Ouvi a parte final da intervenção se Seguro no Debate do estado da Nação. Pareceu-me ir no bom sentido. Vou tentar ouvir a intervenção completa.
  • Nuno Melo, com o seu ar de menino bem comportado, reafirma o seu respeito pela posição do PR e disponibilidade para o dialogo. Mas quando começa nos mas destrói toda a estratégia contida na proposta do PR. E tenta responsabilizar o PS pelo fracasso que pode estar à vista e que penso que o CDS, lá no fundo, deseja.
  • As posições que vão sendo conhecidas do CDS indiciam que a coisa não vai correr de feição para o desafio feito pelo PR.
  • Se restassem dúvidas sobre a confusão que vivemos, na sequência da comunicação do PR, bastaria ver os comentários populares nas televisões, a opinião da generalidade dos comentadores e a forma como os humoristas tratam o assunto. A situação está mesmo muito mal e impõe uma clarificação urgente.
  • É indiscutível a necessidade de encontrar uma plataforma alargada de consenso para enfrentar a situação, negociar o programa de ajustamento com a Troika e assegurar a condução da governação tão depressa quanto possível. Ja o disse aqui varias vezes e nao penso diferente agora. Mas atendendo à inevitabilidade de eleições antecipadas, como é agora consensual, o governo em funções ate lá é, efectivamente um governo de gestão. O consenso proposto pelo PR nao pode, pois, incluir a manutenção deste governo. Nao se entenderia como um governo de transição, para preparar eleições, e com a responsabilidade de gerir um acordo a estabelecer entre os vários partidos, pudesse ser o governo que provocou esta crise. Seria um claro beneficio do infractor. E isso o PR nao pode pedir a ninguém. Neste sentido nao imagino outra solução, caso se entenda persistir nessa tentativa de acordo, aberta a todos os partidos com assento parlamentar, que nao seja a demissão deste governo e a nomeação de um governo novo, com formato a ver, com apoio no quadro parlamentar actual, mas que terá que ter outro PM. Nao sei se esta hipótese será ainda possível. Mas é o máximo que pode ser pedido aos Partidos.

  • Tem razão o Daniel Oliveira, no mesmo sentido de Lobo Xavier: "Sem mostrar disponibilidade para clarificar a situação política, através de eleições, sem aceitar a solução que lhe foi proposta pelos parceiros da coligação e sem apresentar ele próprio uma solução alternativa clara e para agora, Cavaco baralhou tudo ainda mais".
  • Em tempos escrevi aqui esta nota. Em devido tempo isto teria sido possível, se o PR tivesse tomado as medidas para a promover deitando mão da sua magistratura de influência. Com a degradação da situação politica a que chegámos, agravada agora com a confusão criada pela posição do PR, parece-me muito difícil que tal seja possível. Mas aqui fica: "Parece claro que estamos numa situação de crise política, apesar de o PR ter afirmado que o governo tem condições para governar. Nao tem condições para isso e já não tem capacidade para conduzir a negociação em curso com as instâncias internacionais. O governo esta demasiado fragilizado para tal. E o Pais não esta em condições de viver assim durante mais tempo. Parece me claro que é indispensável uma clarificação política que só pode ocorrer através de eleições. Mas é preciso actuar imediatamente para encontrar uma solução que permita, com credibilidade, gerir o período até novas eleições. A situação de bloqueio que se vive tem que ser ultrapassada. Parece-me que a situação de urgência que vivemos impõe uma solução criativa pata gerir a transição. Um governo legitimado no actual quadro parlamentar liderado por uma individualidade consensual, como poderia ser Silva Peneda, com um mandato claro para conduzir a gestão do processo de negociação do reajustamento do programa de assistência financeira e para preparar eleições no mais curto espaço de tempo,poderia ser uma solução de desbloqueamento da situação que vivemos. E é uma solução possível sem pôr em causa a devolução da palavra aos portugueses. Se todos os agentes políticos, desde os partidos do governo ao PS incluindo o Presidente, souberem estar à altura das circunstancias. Em nome do interesse nacional."
  • Duas horas depois da comunicação do PR, o cenário é de confusão e de uma crise potencialmente pior da que temos. O PR não aceita a proposta do governo ( ignorou-a completamente) e não apresenta uma solução que permita uma solução imediata. A solução de salvação nacional, encabeçada por uma personalidade consensual, poderia ter sido uma solução. Agora não sei. Mas se é isso que o PR quer então que o diga claramente. E esse cenário deveria ter sido preparado e testado durante estes dias. Sinceramente não entendo. Agora temos um governo que não é e não temos nenhuma solução à vista.
  • Simplesmente lamentável e preocupante: o PR fala e há mil interpretações sobre o que ele disse.
  • Confesso-me perplexo e embatucado com a comunicação do PR. Depois de ouvir toda a gente resolve decretar que a crise continua. Não sabemos se temos governo e qual. Temos governo em plenitude de funções ou um governo de gestão até Junho de 2014? 
  • Confesso-me confuso e muito preocupado com a incapacidade, agora também revelada pelo PR, de encontrar soluções para a crise que vivemos.
  • Este governo nao tem Vice Primeiro Ministro. Mas a sua Ministra das Finanças, ao mesmo tempo que o PR ouve partidos e parceiros sociais para formular uma decisão, afirma em Bruxelas que trabalhara com o Vice Primeiro. Ministro nas relações com a Troika. E assim vai Portugal. Enquanto em Belém se cumprem formalidades e o PR afirma que ainda nao tomou nenhuma posição, a solução proposta pelo Governo é considerada como um adquirido e, assim, condiciona a liberdade de decisão da instituição Presidente da Republica. Isto é normal?
  • Assim vai Portugal: Temos um governo com Ministros que já não são, um futuro governo já anunciado que ainda não é, noticias de que o PR viabilizará um governo que foi publicitado sem o seu aval e, por fim, o PR vai ouvir os partidos políticos sobre algo que, no meio desta confusão, não se sabe o que é. 
  • Se isto nao é viver em crise motivada pelo irregular funcionamento das instituições, não sei o que é. Aguardemos os próximos episódios.
  • "Passos e Portas tentam redimir os seus erros com novas promessas. Deviam tê- las feito há uma semana". (Editorial do Publico). Ao terem permitido criar esta confusão demonstraram não estar à altura das circunstancias. Por mais voltas que tentem dar a crise política manter-se-á porque se quebraram todos os laços de confiança entre parceiros de coligação e porque ninguém acredita nesta reconciliação. O Pais perde com a falta de clarificação. Ainda se esta a tempo de evitar a consumação de uma solução em que ninguém acredita. Nem os seus promotores.
  • Portas fez xeque mate e ganhou. E precisamente por isso esta solução nao é credível. Portas e o CDS queriam reforçar o seu poder no governo. Nao o conseguiram na relação normal de parceiros de coligação. Conseguem-no agora como forma de ultrapassar uma declaração publica de ruptura. Beneficiou-se o infractor. E isto, claro está, não pode convencer ninguém. Esperemos pelo que diz o PR.
  • A solução duradoura exigida pelo PR nao tem qualquer viabilidade com estes protagonistas. Bem podem todos esforçar-se para encontrar argumentos racionais que permitam aguentar esta solução governativa. Acontece que ninguém acredita nisso e esse sentimento expontâneo que se capta na rua é o que efectivamente confere uma leitura realista. Uma solução duradoura tem necessariamente que passar por uma mudança de governo e contar com outros protagonistas. Alimentar ilusões no actual governo ou em soluções vindas de si, é atrasar o desfecho inevitável. E estamos a perder tempo.
  • Parece, a avaliar pelo tom e conteúdo da declaração do PM, que a suposta solução para a solução da crise nao terá grandes pernas para andar. Sinceramente nao senti nenhuma convicção nas palavras de Passos Coelho. A referencia à decisão final do PR em função da avaliação que venha a fazer, reforça essa ideia. Aguardemos por segunda feira.
  • Depois dos estragos provocados por atitudes irresponsáveis, Passos Coelho parece estar a apresentar as linhas gerais de um acordo firmado para sustentar a coligação. Tenho curiosidade em o conhecer e qual a atitude do PR face a este desenlace.
  • Face à irresponsabilidade demonstrada pelos lideres da coligação, Passos e Portas, na conduçao dos assuntos da governação, há que encontrar soluções para a rápida substituição do governo. Todos os cenários devem estar em aberto e a realização de eleições são inevitáveis. Quer se realizem ja, quer um pouco mais tarde, se tal for necessário em função das necessidades de assegurar condições para o necessário reajustamento do memorando com a Troika, o período ate lá deveria ser assegurado por um governo credível e que nao fique à mercê de caprichos motivados por cálculos eleitorais. A negociação de apoio parlamentar para um governo de gestão de salvação nacional, com mandato claro para conduzir o Pais e negociar a revisão do memorando, ao mesmo tempo que se preparam eleições, pode ser uma solução de recurso. O que me parece obvio é que estes senhores nao reúnem condições para continuar nem mesmo em gestão. Como é possível alguém abrir uma crise destas proporções para pressionar a renegociação da coligação e depois voltar tudo ao mesmo como se nada tivesse acontecido? Isto nao é uma brincadeira. O Pais nao pode ficar nas mãos de tanta irresponsabilidade.
  • Portugal e os portugueses merecem ser tratados com respeito. E o espectáculo a que estamos a assistir nao é tolerável. Estamos perante uma brincadeira de garotos. Haja alguém que ponha cobro a isto urgentemente. O PR nao pode ficar quieto e tem que assumir as suas responsabilidades garantindo o regular funcionamento das instituições democráticas. Porque se espera para dar um murro na mesa e dizer basta a tanta irresponsabilidade e a tanta brincadeira?
  • Tudo parece indicar que Passos Coelho comunicara aos portugueses que apresentou a demissão ao PR. É o que lhe resta se quiser mostrar sentido de estado e de responsabilidade, abrindo caminho para que se encontrem as saídas que a crise impõe. Vamos aguardar pela comunicação das 20h.