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1 de janeiro de 2016

Do 4 de Outubro ao Governo de esquerda. A minha leitura

Aqui ficam, para memória futura (se interessar a alguém) a minha leitura da evolução da situação politica criada com as eleições de 4 de Outubro. São os posts que fui deixando no FB e que agora aqui reúno.

25 Novembro
O XXI governo constitucional. 40 anos depois de Melo Antunes ter afirmado que o PCP era um partido fundamental à democracia, no rescaldo do 25 de Novembro, António Costa lidera um governo de esquerda que, pela primeira vez na história da democracia portuguesa, conta com o apoio de toda a esquerda parlamentar. Estamos perante mais um momento histórico da democracia portuguesa. Espero que toda a esquerda esteja à altura do desafio e que, assim, contribua para honrar todos os que teimaram em não desistir de construir um regime onde todos caibam, no respeito das suas diferenças. Boa sorte a todos. Portugal e os portugueses merecem.

24 Novembro
António Costa indigitado PM. Finalmente vamos iniciar uma nova página na nossa democracia. As expectativas são altas. Estou a torcer para que tudo corra bem. Desejo as maiores felicidades ao António Costa e ao seu governo.
Gosto desta síntese que fundamenta a posição do PS de se abster na votação da manobra de diversão da coligação de direita.
"Para o PS, não é o que está escrito no diploma que impede a votação favorável, mas sim o que não está. “Faltam referências à visão social da União Europeia e faltam referências ao compromisso que já se obteve sobre a necessidade de fazer uma leitura inteligente do Tratado Orçamental”, diz, lembrando que o comissário europeu para os assuntos económicos e financeiros, Pierre Moscovici, já admitiu que alguns países “em situações vitais” possam não cumprir os critérios do tratado orçamental. É o caso de França, devido ao atual “esforço de guerra”, e da Alemanha, devido ao esforço relacionado com o acolhimento de um elevado número de refugiados."

19 Novembro
Espero que se confirme. É um duplo bom sinal: Costa será PM e o PS ficará com uma grande dirigente aos comandos. A Ana Catarina Mendes tem todas as qualidades para o cargo e para muito mais. BOA SORTE

11 Novembro
Será verdade o que estou a ver na SIC noticias? A direita não percebeu ainda que o programa do seu governo foi derrotado? E que o governo já caiu?

11 Novembro
Portugal, Grécia e Espanha têm percorrido juntos os últimos 40 anos da sua história.
A queda das ditaduras e a instauração da democracia nos anos 70, começando em Portugal, Espanha e Grecia; a adesão à União Europeia nos anos 80, começando com a Grecia, Portugal e Espanha; a construção, apesar das diferentes soluções, de novas alternativas de governo, rompendo com os centrões cinzentos. Desta vez a Grécia voltou a inaugurar o ciclo de mudanças, seguiu-se Portugal e, tudo indica, poderá acontecer em Espanha nas próximas eleições.
Se isto se verificar poderemos, desta vez, estar a criar condições para aprofundar as nossas democracias e influenciar as mudanças necessárias na Europa. Os Países do Sul estão a fazer história e poderão constituir - se como um núcleo decisivo no processo de mudança europeia.

10 novembro
Há 16 anos o PSD apresentou uma moção de rejeição do 2 governo de Guterres que tinha acabado de ganhar as eleições e que tinha 115 deputados. Se, na altura, a moção tivesse sido aprovada, o governo tinha caído. Não caiu, mad podia ter caído.
O que a esquerda fez agora foi apresentar moções de rejeição que foram aprovadas. E o governo caiu.
É simples. A falta de memória e de coerência é algo que não fica bem.

10 Novembro
10 de Novembro de 2015. Dia histórico da democracia portuguesa. Finalmente acabou - se com um preconceito que impedia que a esquerda se constituísse como alternativa para governar.
Espero sinceramente que este momento histórico seja o princípio de uma nova era.
Estou contente e adoraria ter estado hoje na Assembleia da República.
De Angola associo - me à celebração deste momento histórico.

6 Novembro
Ficamos a saber o que se prenunciava nos últimos dias: Teremos um governo do PS com apoio parlamentar do PCP e do BE. Não é a solução que considero mais adequada, como tenho defendido desde o princípio deste processo.
Espero que, apesar disso, se tenha chegado a um acordo suficientemente sólido e consistente que consiga afirmar esta solução como uma solução duradoura e capaz de mostrar que é possível, sem dramas, escolher caminhos diferentes.
A esquerda está a tomar uma decisão histórica que precisa de saber honrar. A margem para errar é quase nula.
Vamos a isso.
E espero, sinceramente, que o não envolvimento no governo de todos os intervenientes não seja um elemento de fragilização da solução.

3 novembro
Eu sou favorável à um acordo à esquerda e, por isso não o considero contra - natura como Francisco Assis. Só seria contra-natura se o acordo fosse um não - acordo,isto é, se não fosse sólido, sustentável e tendo como núcleo central o programa do PS. E, como tenho vindo a defender aqui, isso deveria incluir a participacao de todos no governo.
Poderia apoiar a posição de Vera Jardim. Não por o acordo à esquerda ser contra natura em si mesmo, mas se for um acordo insuficiente.... Por isso penso que a posição de Vera Jardim é equívoca. E por isso não a subscrevo.
Do mesmo modo, respeito a posição de Assis e se não tivermos um bom acordo, como o entendo, também prefiro que o PS assuma o seu papel de partido da oposição. Mas não pelas mesmas razões de Assis. Por isso não a subscrevo. Porque Assis se opõe ao acordo mesmo que ele seja sólido e consistente.
E quanto à oportunidade do almoço também não me parece a melhor. Mas é a vida. Veremos.

3 novembro
Subscrevo quase na íntegra este texto de Daniel Oliveira. Quem não perceber isto (é não só o que vem no titulo) ainda não percebeu nada do que aconteceu no dia 4 de Outubro. Uma solução alternativa à de governo forte implica o compromisso claro e inequívoco de todos. Um pé dentro e outro fora não dá. Esperemos o que os próximos dias nos reservam. Para mim adensa-se o cepticismo. Aguardemos.

29 Outubro
Vi um pouco da entrevista de Jerónimo de Sousa e estou a ouvir António Filipe no frente a frente da SIC noticias. Devo confessar que espero que, até dia 9, o PCP demonstre um empenho mais firme e mais envolvido na alternativa de governo que está a ser construída à esquerda. Portugal precisa de uma solução forte de governo para dar a volta à situação que nos foi deixada.

25 Outubro
Recomendo a leitura de Pedro Adão e Silva no expresso desta semana. Integrar no espaço da governação partidos de protesto, ou mante - los à margem do sistema onde tinham decidido acantonar -se, é o desafio que se coloca hoje à democracia portuguesa. Mas há os que insistem em querer parar os ventos da história que agora se esta a fazer, não só em Portugal como em outros países europeus. E uma dessas pessoas ocupa, em Portugal, o cargo de Presidente da República. Por pouco tempo. Mas bem poderia ter escolhido outra forma de ficar na história.

22 outubro
Não gosto do que ouço. A notícia de que o acordo do PS com o BE e o PCP é, simplesmente, de incidência parlamentar, por mais abrangente e claro que seja, não é suficiente e, por isso, nao me agrada.
Um acordo à esquerda é algo de novo e representa uma ruptura radical com o Status quo de 40 anos. É uma boa notícia. Mas tem que ser muito sólido. E essa solidez só se conseguirá com a participação de todos os partidos no governo.


22 Outubro
O Presidente da República indigitou, legitimamente, Passos Coelho. Mas as razões que invocou para o fazer são uma afronta aos mais elementares princípios democráticos. O PR não tem legitimidade para excluir as forças políticas de que não gosta. Lamentável.

21 Outubro
Devemos conhecer hoje a decisão do PR sobre a indigitação do PM.
Ouvidos os partidos e sabendo que a esquerda inviabilizará um governo da coligação de direita, o PR deverá indigitar Passos Coelho, a avaliar pelo que tem dito, isto é, que não se substituirá ao parlamento. Penso que, do seu ponto de vista, fará bem, embora possa parecer uma perda de tempo.
Ao presidente o que é do presidente e ao parlamento o que é do Parlamento. Se a sua avaliação e leitura dos resultados ele
itorais o conduz a essa decisão, acho bem que não faça o que a sua consciência não lhe recomenda.
O Presidente indigita quem acha que deve indigitar. O Parlamento viabiliza ou inviabiliza o que acha que deve inviabilizar.
Tudo indica que 122 deputados votarão moções de rejeição do governo e assim o governo cai ao fim de 10 dias. E se assim for cai legitimamente porque não terá conseguido obter a aprovação do Parlamento. Isto não é nenhum golpe de estado. É a democracia parlamentar a funcionar. Sem dramas.
Com a queda do governo, o PR fica obrigado a encontrar uma solução de governo com maioria parlamentar. Cumpre -lhe aceitar como legitima a solução que lhe vier a ser apresentada. A aceitação de um governo alternativo, indigitando António Costa como PM, é tão legitima como foi a indigitação de Passos Coelho.
O Parlamento se encarregará de viabilizar o governo que perante ele se apresentar.
É simples. É constitucional. É democrático. NÃO É NENHUM GOLPE DE ESTADO.


19 outubro
Subscrevo inteiramente este texto de Pedro Adão e Silva. Aqui fica um pequeno excerto. Mas recomendo a sua leitura integral
"Hoje, só há, por isso, dois caminhos: ou um governo minoritário da coligação viabilizado pelo PS (se não houver entendimento à esquerda), ou, alternativamente, um Governo assente num compromisso para 4 anos e do qual farão parte, com representação no elenco governativo, PS, BE e PCP. Todas as outras hipóteses são velhas e terão de ser deitadas para o caixote de lixo da história."


19 outubro
Se mais não fosse, a situação saída das eleições de 4 de Outubro suscitou o interesse em reler os últimos 40 anos de vida política em Portugal. Aqui fica uma leitura. Sem prejuízo de algumas imprecisões, reconheço -me, no essencial na análise feita. Aqui fica para os mais novos.
Esta análise não deve, claro está, levar - nos a concluir que nada pode mudar. Mas perceber a história recente permite identificar alguns condicionantes da discussão actual.
Aguardemos pelos desenvolvimentos e resultados finais. Sem dramatismos.


14 Outubro
Estou longe e não tenho outra informação para além da que vem na comunicação social. Do que leio, e a ser verdade o que se diz na imprensa, acho que o PS está a conduzir o processo como deve. E a ideia de que se poderá avançar para um governo alternativo desde que se chegue a um acordo de governo sólido e de legislatura ( que a meu ver deve contar obrigatoriamente com a participação do PC e do BE), agrada - me. E também me agrada a ideia de viabilizar, pela abstenção, um governo da coligação, assumindo o PS o seu papel de oposição, caso o acordo a esquerda não se concretize.


12 Outubro

Registo com agrado as notícias que dão como boa a reunião com o BE. A perspectiva de haver condições para uma alternativa de governo estável é uma boa notícia. Importa aguardar como tal se concretizará. Como já disse para mim deverá concretizar - se numa participação efectiva no governo de todas as forças políticas envolvidas, com um programa negociado que deverá ter como núcleo central o programa do PS, nomeadamente no que se refere aos compromissos europeus.
Também gostei de saber que a realização de um eventual referendo interno abrangerá, também, uma eventual solução de viabilização de um governo da coligação, caso venha a ser necessário por impossibilidade de um acordo à esquerda.
Acho que o processo está a ser conduzido com sensatez política e com sentido de responsabilidade.
Aguardemos os novos desenvolvimentos.



11 Outubro
Vale a pena ler este artigo de Pacheco Pereira..de que retiro, para abrir o apetite, o seguinte pedaço :
"Como é que podemos somar os votos? Há apenas um critério seguro de somar os votos: quem votou contra ou a favor da experiência governativa dos últimos quatro anos. Esta descrição é mais segura do que dizer quem votou a favor ou contra a “austeridade”. Aí, os votos do PS, PCP e BE e de vários pequenos partidos somam-se sem qualquer espécie de reserva. Outras somas são possíveis mas menos sólidas: a do “arco da governação”, baseada no discurso das “regras europeias”, junta PS e PSD; ou a da “maioria de esquerda”, que junta PS, PCP e BE num quadro governativo comum. Ambas são frágeis...."


11 Outubro
Volto ao trabalho no exterior depois do dever cumprido. Votei em consciência e assim fiz o que estava ao meu alcance para ajudar a encontrar a solução de governo para o meu País.
Parto com dúvidas quanto à solução que virá a ser encontrada. Mas com a certeza de que nada será igual depois das eleições de 4 de Outubro. Pode até acontecer que se ponha cobro a um dogma da vida política portuguesa e as esquerdas à esquerda do PS possam, finalmente, integrar soluções de governo. Os
... próximos dias o dirão.
Gostava de aqui deixar a minha opinião sobre o que aí poderá vir:
1. O PS deve trabalhar com empenho para conseguir uma alternativa sólida de governo numa correcta interpretação dos resultados eleitorais. Essa alternativa só pode ser, no actual contexto político e parlamentar, uma aliança com o PCP e o BE.
2. O PCP e o BE têm a responsabilidade histórica de mostrar que não são só partidos de protesto mas que estão disponíveis para se empenhar na construção dessa alternativa.
3. Esta solução significara uma ruptura tal com o quadro político que temos vivido, que não pode ser uma coisa frouxa. Só um acordo formal envolvendo as três forças políticas no governo será suficientemente forte para a legitimar.
4. Acho que o PS não deve aceitar fazer um governo minoritário, mesmo que com um acordo de viabilização por parte do PC e BE. Deixar parte da solução de fora do governo, a meu ver, seria um erro.
5. Se um governo a três não for possível, o PS deverá assumir, como partido responsável, que não tem condições para governar e viabilizar, sem negociação e sem compromissos programáticos, um governo da coligação de direita e assumir, com vigor e de forma consequente mas responsável, a liderança da oposição.
Vamos ver como isto acaba. Nada ficará na mesma. Mas como ficará depende das soluções que se encontrarem.


5 Outubro
Confesso que me baralham algumas análises e conclusões sobre o resultado das eleições. Aqui fica a minha analise:
1. A coligação ganhou as eleições, por ser a força política que, por si, teve mais votos e mais deputados. Contudo perdeu a maioria absoluta, e tem menos votos e menos deputados que todos os restantes partidos que, concentraram os votos dos portugueses que se opõem à sua política. Quer isto dizer que ganhou embora tenha perdido.
2. As esquerda's, em conjunto, ganh
...aram as eleições, porque tiveram mais votos e mais deputados que a direita. Mas perderam porque nenhum dos partidos que a compõem teve, sozinho, mais votos e mais deputados que o bloco de direita. O problema é que não há esquerda..Há esquerdas que no tempo que já leva a nossa democracia nunca conseguiram unir-se para enfrentar a direita.
3. Os portugueses que se opõem à política de direita são mais que os portugueses que são a favor.
4. Há uma maioria de votos e deputados contra a politica da coligação de direita. Contudo isso não chega para ganhar eleições e governar o país.
5. Transformar essa maioria contra em maioria a favor de um programa alternativo é o desafio que se coloca a quem quiser, de facto, impedir que a direita governe.
6. Mas isso não se faz dizendo que o PS tem condições para formar governo (como diz o PC), nem que a direita não pode governar porque perdeu a maioria ( como diz o Bloco).
7. É preciso puxarem-se à frente e aceitar construir um acordo de compromisso, respeitando os resultados dos diferentes partidos que compõem a esquerda. Desafiar o PS para executar o programa político das forças de esquerda com menos votos, não é, seguramente, a solução.
8. Será que bloco e PC estarão disponíveis para fazer um compromisso em torno de um programa político que, com ajustamentos e compromissos, tenha como núcleo central as propostas do PS, como partido mais votado da esquerda?
9. Se isto for possível poderemos então falar de uma maioria de esquerda para governar o País. Vamos ver.
10. Devo confessar que não tenho ilusões sobre a possibilidade de tal aproximação nos termos em que a proponho. E neste caso o que acontecerá é, mais uma vez, permitir que a direita governe restando ao PS o papel de partido da líder da oposição barrando o caminho à continuidade da política que agora foi derrotada nas urnas.
E se tal acontecer importa que todos assumam as suas responsabilidades e não se ponham de fora dizendo que afinal o PS faz o jogo da direita.




10 de outubro de 2013

PAPA FRANCISCO: UMA ENTREVISTA HISTÓRICA?

Aqui deixo, para quem quizer ler e, sobretudo, como forma de guardar para memória futura, uma entrevista do Papa Francisco que considero marcante do inicio do seu papado. Não sou crente,mas tal como Scalfari, também penso que este homem, se conseguir fazer o que pensa dever ser a Igreja que dirige, estaremos perante uma "mudança de era". 

Papa Francisco e Eugenio Scalfari: a arte do diálogo


O título é roubado a Hans Kung, que esta quarta-feira comentava dessa forma noLa Repubblica a entrevista publicada na véspera pelo jornal italiano.
O director do jornal, Eugenio Scalfari, estivera com o Papa Francisco uma semana antes. E concluía, após o colóquio: “Este é o Papa Francisco. Se a Igreja se tornar tal como Francisco a pensa e deseja, teremos uma mudança de era.”
Esta nova entrevista do Papa que nem gosta especialmente de entrevistas revela (mais do que as frases mais mediáticas sobre a Cúria ou o Vaticano), a vontade de alguém que insiste sobretudo em falar do que deve ser essencial na mensagem cristã – a pessoa de Jesus. E do modo como isso deve levar os crentes a entenderem-se com os não-crentes que, na cidade dos homens, querem uma outra forma de vida, com mais espaço para todos.
A entrevista surge no contexto da reunião que hoje termina no Vaticano, entre o Papa e os oito cardeais por ele chamados para o novo conselho de consultores, que ele pretende colocar a colaborar estreitamente com ele no governo da Igreja. Há dia, em passagem por Portugal, o cardeal Seán O’Malley, arcebispo de Boston, falava das expectativas de reforma da Igreja que esta reunião trazia – nomeadamente em termos de uma maior colegialidade e participação.
A entrevista publicada pelo La Repubblica sucede a uma troca de cartas entre Eugenio Scalfari e o Papa, publicada há poucas semanas pelo mesmo jornal. Scalfari começou por questionar o Papa, numa espécie de carta aberta, sobre a questão das reformas e o Papa tomou a iniciativa de responder ao director do jornal, manifestando-lhe também a sua vontade de se encontrar com ele.
O texto original da entrevista agora publicada pode ser encontrado aqui.
A tradução aqui utilizada, que apenas foi sujeita a uma pequena revisão, foi feita por Rui Pedro Vasconcelos, da Livraria Fundamentos, de Braga.


Diz-me o Papa Francisco: “O pior dos males que afligem o mundo nestes anos é o desemprego dos jovens e a solidão em que são deixados os velhos. Os velhos têm necessidade de atenção e de companhia; os jovens de trabalho e de esperança, mas não têm nem uma nem outra, e o problema é que já nem o procuram. Foram esmagados no presente. Diga-me: pode-se viver esmagado no presente? Sem memória do passado nem desejo de se projectar no futuro construindo um projecto, um horizonte, uma família? É possível continuar assim? Isto, segundo me parece, é o problema que a Igreja tem diante de si.”
Santidade, digo-lhe, é um problema sobretudo político e económico, que diz respeito aos Estados, aos governos, aos partidos, às associações sindicais.
“Certo, tem razão, mas diz respeito também à Igreja, aliás diz respeito sobretudo à Igreja porque estas situações não ferem apenas o corpo mas também a alma. A Igreja deve sentir-se responsável seja das almas como dos corpos.”
Santidade, diz-me que a Igreja deve sentir-se responsável. Devo deduzir que a Igreja não está consciente deste problema e que o senhor a conduz nesta direcção?
“De certo modo esta consciência existe, mas não de modo suficiente. Desejo que seja ainda mais. Não é este o único problema que temos diante de nós, mas é o mais urgente e o mais dramático.”

O encontro com o Papa Francisco teve lugar terça-feira na sua residência de Santa Marta, numa pequena sala simples, com uma mesa e cinco ou seis cadeiras, e um quadro na parede. Foi precedido de uma chamada que não esquecerei enquanto for vivo.
Fico em choque enquanto a voz de Sua Santidade me fala do outro lado da linha: “Bom dia, sou papa Francisco.” Bom dia Santidade – digo eu –, estou chocado, não esperava que me telefonasse. “Porquê chocado? Você escreveu-me uma carta pedindo-me para me conhecer pessoalmente. Eu tinha o mesmo desejo e por isso aqui estou para marcar o encontro. Vejamos a minha agenda: quarta não posso, segunda também não, poderá ser terça?”
Repondo: é perfeito.
“O horário é um pouco incómodo, às 15 pode ser? Se não, mudamos o dia.” Santidade, está perfeito também. “Então estamos de acordo: terça 24, às 15 horas. Em Santa Marta. Deverá entrar pela porta do Santo Ofício.”
Não sei como concluir a chamada e deixou-me ir dizendo-lhe: posso abraçá-lo por telefone? “Certamente, também o abraço. Depois o faremos pessoalmente, adeus.”
Aqui estou. O Papa entra e dá-me a mão, e sentamo-nos. O Papa sorri-me e diz-me: “Um dos meus colaboradores que o conhece disse-me que você vai tentar converter-me.”
É uma piada, respondo-lhe. Também os meus amigos pensam que será o senhor a querer converter-me.
Volta a sorrir e responde: “O proselitismo é um absurdo solene, não tem qualquer sentido. É necessário conhecer-se, escutar-se e procurar conhecer melhor o mundo que nos rodeia. A mim acontece-me que, depois de um encontro, tenho vontade de o repetir porque nascem novas ideias e descobrem-se novas necessidades. Isto é importante: conhecer-se, escutar-se, ampliar o círculo de pensamento. O mundo é percorrido por estradas que aproximam e afastam, mas o importante é conduzirem-nos em direcção ao Bem.”
Santidade, existe uma única visão do Bem? E quem a estabelece?
“Cada um de nós tem a sua visão do Bem e também do Mal. Nós deveremos incitar a proceder segundo o que, em consciência, se pensa ser o Bem.”
Santidade, já o havia escrito na carta que me endereçou. A consciência é autónoma, disse, e cada um deve obedecer à própria consciência. Penso que será uma das frases mais corajosas ditas por um Papa.
“E aqui a repito. Cada um tem a sua ideia de Bem e de Mal e deve escolher seguir o Bem e combater o Mal como lhe dirá a consciência. Bastaria isso para melhorar o mundo.”
A Igreja está a fazê-lo?
“Sim, as nossas missões têm esse objectivo: individuar as necessidades materiais e imateriais das pessoas e procurar satisfazê-las como podemos. Sabe o que é o ‘ágape’?”
Sim, sei.
“É o amor pelos outros, como o Senhor o anunciou. Não é proselitismo, é amor. Amor pelo próximo, fermento que serve o bem comum.”
Ama o próximo como a ti mesmo.
“Exactamente, é assim.”
Jesus, na sua pregação, disse que o ágape, o amor pelos outros, é o único modo de amar a Deus. Corrija-me se estou enganado.
“Não está. O Filho de Deus encarnou para infundir nas almas dos homens o sentimento da fraternidade. Todos irmãos e todos filhos de Deus. Abba, como ele chamava ao Pai. Eu traço-vos o caminho, dizia. Segui-me e encontrareis o Pai e sereis todos seus filhos e ele se comprazerá em vós. O ágape, o amor de uns pelos outros, dos mais próximos aos mais distantes, é assim o único modo que Jesus nos indicou para encontrar o caminho da Salvação e das Bem-Aventuranças.”
Todavia a exortação de Jesus, que recordamos antes, é a de que o amor pelo próximo seja igual àquele que temos por nós próprios. Por isso aquilo que muitos chamam de narcisismo é reconhecido como válido, positivo, na mesma medida do amor ao outro. Discutimos durante algum tempo sobre este aspecto.
“Para mim – dizia o Papa – a palavra narcisismo não me agrada, indica um amor imoderado a si mesmo e isto não é bom, pode produzir danos graves não apenas à alma daquele que é afectado mas também à relação com os outros, com a sociedade em que vive. O verdadeiro problema é que os mais atingidos por este problema, que é na realidade um distúrbio mental, são pessoas que têm muito poder. Muitas vezes os líderes são narcisistas.”
Também muitos líderes da Igreja o foram.
“Sabe o que penso sobre este assunto? Os líderes da Igreja frequentemente foram narcisistas, lisonjeados e erradamente animados pelos seus cortesãos. A coorte é a lepra do papado.”
A lepra do papado, foi a sua expressão. Mas o que é a coorte? Refere-se à Cúria? – perguntei.
“Não, na Cúria haverá talvez cortesãos, mas a Cúria, no seu complexo, é outra coisa. É aquilo que nos exércitos se designa de intendência, gere os serviços que servem a Santa Sé. Mas tem um defeito: é Vaticano-centrista. Vê e trata dos interesses do Vaticano, que são ainda, em grande parte, interesses temporais. Esta visão vaticano-centrista transcura o mundo que a rodeia. Não partilho desta visão e farei tudo para a mudar. A Igreja é ou deve tornar a ser uma comunidade do Povo de Deus e os presbíteros, os párocos, os bispos com cura de almas, estão ao serviço do Povo de Deus. A Igreja é isto, uma palavra não por acaso diversa da Santa Sé, que tem uma função importante mas está ao serviço da Igreja. Eu não poderia ter a fé plena em Deus e no seu Filho se não me tivesse formado na Igreja e não tivesse a sorte de me encontrar, na Argentina, numa comunidade sem a qual não teria tomado consciência de mim mesmo e da minha fé.”
Sentiu a sua vocação desde jovem?
“Não desde muito jovem. Tive, por indicação da minha família, de ter outra profissão, trabalhar, ganhar um salário. Frequentei a universidade. Tive também uma professora pela qual ganhei respeito e amizade, era uma comunista fervorosa. Muitas vezes lia-me e dava-me a ler textos do Partido Comunista. Assim conheci também aquela concepção muito materialista. Lembro-me de que me fez ter também o comunicado dos comunistas americanos a defender os Rosenberg, que haviam sido condenados à morte. A senhora de que falo foi depois detida, torturada e assassinada pelo regime ditatorial que na altura governava a Argentina.”
O comunismo seduziu-o?
“O seu materialismo não teve qualquer atracção em mim. Mas conhecê-lo através de uma pessoa corajosa e honesta foi-me muito útil, percebi algumas coisas, um aspecto do social, que depois reencontrei na doutrina social da Igreja.”
A teologia da libertação, que o Papa Wojtyla excomungou, estava muito presente na América Latina.
“Sim, muitos dos seus expoentes eram argentinos.”
Pensa que foi correcto o Papa tê-los combatido?
“Certamente davam um seguimento político à sua teologia, mas muitos de entre eles eram crentes e com um conceito muito elevado de humanidade.”
Santidade, permite-me dizer também algo sobre a minha formação cultural? Fui educado por uma mãe muito católica. Aos 12 anos venci até um concurso de catequese entre todas as paróquias de Roma e tive um prémio do Vicariato. Comungava todas as primeiras sextas-feiras de cada mês, frequentava a liturgia e acreditava. Mas tudo mudou quando entrei no liceu. Li, entre os textos de filosofia que estudávamos, o “Discurso sobre o Método” de Descartes, e fiquei marcado pela frase, tornada um ícone, “Penso, logo existo”. O eu torna-se assim a base da existência humana, a sede autónoma do pensamento.
“Descartes todavia nunca renegou a fé no Deus transcendente.”
É verdade, mas pôs o fundamento de uma visão totalmente diversa e a mim aconteceu-me ter-me encaminhado por aquele caminho que depois, corroborado por outras leituras, me conduziu a um ponto totalmente diferente.
“Mas o senhor, pelo que percebi, é um não crente, mas não um anticlerical. São duas coisas muito diferentes.”
É verdade, não sou anticlerical, mas torno-me nisso quando encontro um clerical.
Sorri-me e diz-me: “Também me acontece a mim: quando tenho diante de mim um clerical torno-me de imediato anticlerical. O clericalismo não deveria ter nada a ver com o cristianismo. São Paulo foi o primeiro a falar aos gentios, aos pagãos, aos crentes de outras religiões, foi o primeiro a ensiná-lo.”
Posso perguntar-lhe, Santidade, quais são os santos que sente mais próximos da sua alma e sobre os quais se formou a sua experiência religiosa?
“São Paulo foi aquele que colocou as bases da nossa religião e do nosso credo. Não é possível ser-se um cristão consciente sem São Paulo. Traduziu a pregação de Cristo numa estrutura doutrinal que, ainda que com as actualizações de uma imensa quantidade de pensadores, teólogos, de pastores de almas, resistiu e resiste ao fim de dois mil anos. E a seguir, Agostinho, Bento e Tomás e Inácio. E naturalmente Francisco. Devo explicar-lhe o porquê?”
Francisco – seja-me permitido nesta altura referir-me assim, pois o Papa é o primeiro a sugerir-mo pela maneira como fala, como sorri, pelas suas expressões de surpresa ou de concordância, olhando-me de modo a encorajar-me a colocar até as perguntas mais difíceis e mais embaraçosas para a liderança da Igreja.
Então eu pergunto-lhe: de Paulo explicou a importância e o papel que teve, mas gostaria de saber entre aqueles que nomeou quem sente mais próximo da sua alma?
“O senhor pede-me uma classificação, mas as classificações só se podem fazer no desporto ou em algo similar. Poderei dizer-lhe o nome dos melhores futebolistas da Argentina. Mas os santos...”
Costuma dizer-se “brinca com as crianças e deixa os santos”, conhece o provérbio?
“Exacto. Todavia não quero evitar a sua pergunta porque não me pediu uma classificação da importância cultural e religiosa mas sim quem está mais próximo da minha alma. Agora digo-lhe: Agostinho e Francisco.”
E não Inácio, de cuja Ordem o senhor vem?
“Inácio, por razões compreensíveis, é aquele que melhor conheço. Fundou a nossa Ordem. Recordo-lhe que da nossa Ordem provém também Carlo Maria Martini, para mim e para si também é alguém muito caro. Os jesuítas foram e continuam a ser o fermento – não o único, mas talvez o mais eficaz – da catolicidade: cultura, ensino, testemunho missionário, fidelidade ao pontífice. Mas Inácio, que fundou a Companhia, era também um reformador e um místico. Sobretudo um místico».
Pensa que os místicos foram importantes para a Igreja?
“Foram fundamentais. Uma religião sem místicos é uma filosofia.”
Tem uma vocação mística?
“Que lhe parece a si?”
A mim parece-me que não.
“Provavelmente tem razão. Adoro os místicos; até Francisco, em muitos aspectos da sua vida, foi um místico mas eu não creio ter essa vocação, além de que é necessário compreender o significado profundo da palavra místico. O místico consegue despojar-se do fazer, dos factos, dos objectivos e até da pastoralidade missionária a fim de atingir a comunhão com os Bem-Aventurados. Breves momentos que no entanto preenchem toda a vida.”
Alguma vez lhe aconteceu a si?
“Raramente. Por exemplo, quando o Conclave me elegeu como Papa. Antes da aceitação, pedi para me retirar alguns minutos na sala ao lado daquela com a varanda para a praça. A minha cabeça estava completamente vazia e uma grande ânsia me tinha invadido. Para me relaxar, fechei os olhos e expulsei todos os pensamentos, também aqueles de recusar-me a aceitar o encargo, tal como é permitido pelo procedimento litúrgico. Fechei os olhos e deixei de ter qualquer ansiedade ou emotividade. A um certo ponto, uma grande luz me invadiu, foi por um momento mas a mim pareceu-me longuíssimo. Depois a luz dissipou-se, eu levantei-me imediatamente e dirigi-me à sala onde os cardeais me esperavam e onde se encontrava a mesa com a acta de aceitação. Assinei-a, o cardeal camerlengo confirmou-a e depois, na varanda, tivemos o ‘Habemus Papam’”.
Ficamos um pouco em silêncio e, em seguida, digo-lhe: Falávamos dos santos que sente mais vizinhos à sua alma e ficamos em Agostinho. Quer dizer-me porque o sente muito próximo de si?
“Também o meu predecessor tem Agostinho como ponto de referência. Aquele santo atravessou muitos episódios na sua vida e mudou muitas vezes a sua posição doutrinal. Teve também palavras muito duras no confronto com os hebreus, algo que nunca partilhei. Escreveu muitos livros e aquilo que me parece mais revelador da sua intimidade intelectual e espiritual são as ‘Confissões’, contêm muitas manifestações de misticismo mas não é, como muitas vezes se defende, o continuador de Paulo. Antes, vê a Igreja e a fé de um modo profundamente diverso de Paulo, talvez porque quatro séculos os separem.”
Qual é a diferença, Santidade?
“Para mim é diferente em dois aspectos, substanciais. Agostinho sente-se impotente diante da imensidade de Deus e diante dos encargos que um cristão e bispo devem concretizar. De facto ele não foi de modo nenhum incapaz, mas a sua alma sentia-se sempre aquém do que teria desejado. Outro aspecto é a graça dispensada pelo Senhor como um elemento fundante da fé. Da vida. Do sentido da vida. Quem não é tocado pela graça poderá ser uma pessoa sem mancha e sem medo, mas jamais será como uma pessoa tocada pela graça. Esta é a intuição de Agostinho.”
Sente-se tocado pela graça?
“Isso ninguém o poderá saber. A graça não faz parte da consciência, é a quantidade de luz que temos na alma, não de sabedoria ou de razão. Até você, de um modo inconsciente, poderia ser tocado pela graça.”
Sem fé? Não crente?
“A graça tem a ver com a alma.”
Eu não creio na alma.
“Pode não crer, mas não deixa de a ter.”
Santidade, havia dito que não tinha nenhuma intenção de me converter e creio que não o conseguiria.
“Isso não se sabe, mas no entanto não tenho qualquer intenção.”
E Francisco?
“É grandíssimo porque é tudo. Homem que quer fazer, que quer construir, funda uma Ordem com a sua regra, é itinerante e missionário, é poeta e profeta, é místico, constatou em si mesmo o mal e dele saiu, ama a natureza, os animais, a erva do prado e os pássaros que voam nos céus, mas sobretudo ama as pessoas, as crianças, os velhos, as mulheres. É o exemplo mais luminoso daquele ágape de que falávamos antes».
Tem razão, Santidade, a descrição é perfeita. Mas então porque nenhum dos seus predecessores escolheu este nome? E, segundo me parece, depois de si nenhum outro o escolherá?
“Isso não o sabemos, não hipotequemos o futuro. É verdade, antes de mim ninguém o escolheu. Aqui enfrentamos o problema dos problemas. Quer beber alguma coisa?».
Obrigado, talvez um copo de água.
Levanta-se, abre a porta e pede a um colaborador que se encontra à entrada para trazer dois copos de água. Pergunta-me se quero um café, respondo que não. A água chega. No final da conversa o meu copo estará vazio, mas o seu continua cheio. Tosse um pouco e começa.
“Francisco queria uma Ordem mendicante e também itinerante. Missionários com a missão de encontrar, escutar, dialogar, ajudar, difundir fé e amor. Sobretudo amor. E acarinhava uma Igreja pobre que se responsabilizasse pelos outros, que recebesse ajuda material utilizando-o para sustentar os outros, sem qualquer preocupação por si própria. Passaram-se 800 anos e os tempos mudaram, mas o ideal de uma Igreja missionária e pobre continua mais do que válida. Esta é também a Igreja que Jesus e os seus discípulos pregaram.”
Os cristãos são neste momento uma minoria. Até em Itália, que é definida como o jardim do Papa, os católicos praticantes serão, segundo algumas sondagens, entre os 8% e os 15%. Os católicos que dizem sê-lo, mas que de facto o são pouco, representam 20%. No mundo existem cerca de mil milhões de católicos e, se juntarmos as outras Igrejas cristãs, superam o os mil milhões e meio, mas o planeta é povoado por 6 a 7 mil milhões de pessoas. Vocês serão muitos, especialmente em África e na América Latina mas, ainda assim, uma minoria.
“Nós sempre fomos uma minoria mas o tema de hoje não é esse. Pessoalmente, penso que ser uma minoria seja até uma força. Devemos ser uma semente de vida e de amor e a semente é uma quantidade infinitamente mais pequena do que a massa de frutos, de flores e de árvores que dela nascem. Penso já ter dito que o nosso objectivo não é o proselitismo mas a escuta das necessidades, dos desejos, das desilusões, dos desesperos, da esperança. Devemos devolver a esperança aos jovens, ajudar os velhos, abrir para o futuro, difundir o amor. Pobres entre os pobres. Devemos incluir os excluídos e anunciar a paz. O Vaticano II, inspirado pelo Papa João e por Paulo VI, decidiu olhar o futuro com um espírito moderno e abrir-se à cultura moderna. Os padres conciliares sabiam que abrir-se à cultura moderna significava um ecumenismo religioso e o diálogo com os não-crentes. Depois disso foi feito muito pouco nessa direcção. Eu tenho a humildade e a ambição de o querer fazer.”
Até porque – permita-me acrescentar – a sociedade moderna atravessa por todo o planeta um momento de crise muito profunda – e não apenas económica, mas social e espiritual. O senhor, no início deste nosso encontro, descreveu uma geração entalada no presente. Também nós, não-crentes, sentimos este sofrimento quase antropológico. Por isso queremos dialogar com os crentes e com quem melhor os representa.
“Eu não sei se sou o que melhor os representa, mas a Providência colocou-me no lugar de liderança da Igreja e da diocese de Pedro. Farei o que está ao meu alcance para cumprir o mandato que me foi confiado.”
Jesus, como o senhor recordou, disse: ama o teu próximo como a ti mesmo. Parece-lhe que isto se concretizou?
“Infelizmente não. O egoísmo aumentou e o amor para com os outros diminuiu.”
Este é talvez o objectivo que nos é comum: ao menos nivelar a intensidade destes dois tipos de amor. A sua Igreja estará preparada a desenvolver este objectivo?
“Você o que pensa?”
Penso que o amor pelo poder temporal será ainda muito forte entre os muros do Vaticano e na estrutura institucional de toda a Igreja. Penso que a Instituição predominará sobre a Igreja pobre e missionária que o senhor desejaria.
“As coisas de facto estão assim e neste âmbito não se fazem milagres. Recordo que também S. Francisco a seu tempo teve de negociar com a hierarquia romana e com o Papa para fazer reconhecer as regras da sua Ordem. No final obtém a aprovação mas com profundas alterações e compromissos.”
O senhor seguirá o mesmo caminho?
“Certamente que não sou Francisco de Assis e não tenho a sua força e a sua santidade. Mas sou o bispo de Roma e o papa da catolicidade. A minha primeira decisão foi nomear um grupo de oito cardeais que serão o meu conselho. Não cortesãos, mas pessoas sábias e animadas dos meus próprios sentimentos. Este é o início de uma Igreja com uma organização não apenas vertical mas também horizontal. Quando o cardeal Martini falava acentuando o papel dos Concílios e dos Sínodos sabia muito bem como foi longo o caminho a percorrer naquela direcção. Com prudência, mas também com firmeza e tenacidade.”
E a política?
“Porque mo pergunta? Eu já lhe disse que a Igreja não se ocupa da política.”
Mas há uns dias fez um apelo aos católicos para se empenharem civil e politicamente.
“Não me dirigi somente aos católicos mas a todos os homens de boa vontade. Disse que a política é a primeira das actividades civis e tem um campo de acção próprio que não é o da religião. As instituições políticas são laicas por definição e operam em esferas independentes. Isto foi dito por todos os meus predecessores, pelo menos de há uns anos para cá, ainda que com acentos diversos. Creio que os católicos empenhados na política têm dentro de si os valores da religião mas têm também uma consciência e uma competência para actuar. A Igreja não ultrapassará o âmbito de exprimir e difundir os seus valores, pelo menos enquanto eu estiver aqui.”
Mas nem sempre a Igreja foi assim.
“Quase nunca foi assim. Frequentemente a Igreja como instituição foi dominada pela dimensão temporal e muitos dos seus membros, incluindo altos expoentes, têm ainda este modo de sentir. Mas deixe-me fazer-lhe uma pergunta: você, laico, não-crente em Deus, em que acredita? Você é um escritor e um homem do pensamento. Acreditará por isso em algo, terá um valor dominante. Não me responda com palavras como honestidade, procura, visão do bem comum; tudo princípios e valores importantes, certamente, mas não é isso que eu pergunto. Pergunto-lhe o que pensa da essência do mundo, até do universo. Pergunta-se a si mesmo, como todos nos perguntamos, quem somos, de onde vimos, para onde vamos. Até uma criança se coloca estas perguntas. E você?”
Agradeço-lhe a pergunta. A resposta é esta: eu creio no Ser, isto é, no tecido do qual surgem as formas, os Entes.
“E eu creio em Deus. Não num Deus católico, não existe um Deus católico, existe Deus. E creio em Jesus Cristo, a sua incarnação. Jesus é o meu mestre e o meu pastor, mas Deus, o Pai, Abba, é a Luz e o Criador. Este é o meu Ser. Parece-lhe que estamos muito distantes?»
Estamos distantes nas ideias, mas próximos como pessoas humanas, inconscientemente animadas dos nossos instintos que se transformam em pulsões, sentimentos, vontade, pensamento e razão. Nisto estamos próximos.
“Mas aquilo que você designa de Ser como o define? Quer definir como o pensa?”
O Ser é um tecido de energia. Energia caótica mas indestrutível e num permanente caos. Desta energia emergem as formas quando a energia chega ao ponto de explodir. As formas têm as suas leis, os seus campos magnéticos, os seus elementos químicos, que combinam casualmente, envolvem-se e, por fim, apagam-se sem que a sua energia se destrua. O ser humano é possivelmente o único animal dotado de pensamento, pelo menos neste planeta e no Sistema Solar. Disse que é animado por instintos e desejos mas acrescento que contém também dentro de si uma ressonância, um eco, uma vocação ao caos.
“Muito bem. Não queria que me fizesse um compêndio da sua filosofia e o que me disse é suficiente. Observo da minha parte que Deus é a luz que ilumina as trevas ainda que não as dissolva, e uma centelha daquela luz divina está dentro de cada um de nós. Na carta que escrevi, recordo ter-lhe dito que também a nossa espécie acabará mas não acabará a luz de Deus que nesse momento invadirá todas as almas e onde será tudo em todos.”
Sim, recordo bem, disse “toda a luz estará em todas as almas” o que – se me permite – dá mais uma imagem de imanência do que de transcendência.
“A transcendência fica porque aquela luz, toda em todos, transcende o universo e as espécies que naquela fase o povoam. Mas regressemos ao presente. Demos um passo em frente no nosso diálogo. Verificamos como na sociedade e no mundo em que vivemos o egoísmo aumentou muito em comparação com o amor pelos outros e os homens de boa vontade deverão trabalhar, cada um segundo as suas forças e competências, para que o amor de uns pelos outros aumente a fim de igualar e, quem sabe, superar o amor de si mesmo.”
Aqui também a política é posta em causa.
“Com certeza. Pessoalmente penso que o assim chamado liberalismo selvagem não faz senão tornar os fortes mais fortes, os débeis mais débeis e os excluídos mais excluídos. É necessária uma grande liberdade, uma total ausência de discriminação e demagogia, e muito amor. São necessárias regras de comportamento e também, se for necessário, intervenções directas do Estado para corrigir as desigualdades mais intoleráveis.”
Santidade, é certamente uma pessoa de uma grande fé, tocada pela graça, animada da vontade de relançar uma Igreja pastoral, missionária, regenerada e não ‘temporal’. Mas da maneira como fala e do quanto eu compreendo, o senhor é e será um papa revolucionário. Metade é jesuíta, metade um homem de S. Francisco, um conúbio nunca antes visto. E depois, gosta de “Promessi Sposi” de Manzoni, Leopardi e sobretudo Dostoievsky, do filme “La strada” e “Prova d’orchestra” de Fellini, “Roma cittá aperta” de Rossellini e também dos filmes de Aldo Fabrizi.
“Gosto destes porque via-os com os meus pais quando era criança.”
Aí está. Posso sugerir-lhe que veja dois filmes recém estreados? “Viva la libertá” e o filme sobre Fellini de Ettore Scola. Estou certo de que gostará.
Sobre o poder eu digo-lhe: sabe que aos vinte anos eu fiz exercícios espirituais durante um mês e meio com os jesuítas? Os nazis estavam em Roma e eu tinha desertado do recrutamento militar. Seríamos punidos com a pena de morte. Os jesuítas hospedaram-nos com a condição de fazermos exercícios espirituais durante todo o período em que estaríamos escondidos na sua casa; e assim foi.
“Mas é impossível resistir a um mês e meio de exercícios espirituais” diz-me, estupefacto e divertido.
Na próxima vez contar-lhe-ei esse episódio. Abraçamo-nos. Saímos pelas breves escadas que nos separam do portão. Peço ao Papa para não me acompanhar mas ele insiste com um gesto.
“Falaremos também do papel das mulheres na Igreja. Recordo-lhe que Igreja [a palavra] é feminino.”
E falaremos também, se quiser, sobre Pascal. Gostaria de saber o que pensa sobre esta grande alma.
“Leve a todos os seus familiares a minha bênção e peça para que rezem por mim. E você, pense em mim, pense muitas vezes em mim.”

Apertamos as mãos e Francisco fica parado com os dois dedos levantados em sinal de bênção. Eu saúdo-o da janela. Este é o Papa Francisco. Se a Igreja se tornar tal como Francisco a pensa e deseja, teremos uma mudança de era.